O clássico que para um Estado

12 de março de 2020

Os gaúchos levantaram taça em 2017, com o Grêmio, e em 2010 com o Internacional.

Por Luã Hernandez, jornalista do Zero Hora.

 

O Rio Grande do Sul vai parar hoje, quinta-feira, 12 de março. E pode parar outras 10 vezes ainda em 2020. Isso porque essa é a quantidade de Gre-Nais que ainda podem ocorrer neste ano, por Gauchão, Libertadores, Copa do Brasil e Brasileirão.
Quando um gaúcho fala que o Estado vai parar em razão do clássico é porque, justamente, tudo vira Gre-Nal. No jornal, é manchete. Na televisão, é comentário até fora do horário do Esporte. Na rádio, nem se fala. Nos bares, nas escolas, nas universidades, nas empresas. Enfim, tudo quanto é lugar passa a falar praticamente só de Gre-Nal. E, na hora do jogo, é estádio, TV ou radinho. Não tem churrasco de domingo que não seja interrompido ou ao menos compartilhado com a voz do Pedro Ernesto (narrador da Rádio Gaúcha, conhecido como o “homem Gre-Nal”).

Diferentemente de Estados como Rio de Janeiro e São Paulo, que têm mais de um clube na elite do futebol nacional e, consequentemente, mais de um clássico e mais de uma torcida, no Rio Grande do Sul, entre os grandes, apenas a Dupla (como são chamados Grêmio e Inter). Até mesmo em Minas Gerais existe o América como terceira força. Além do mais, pela proximidade maior com o eixo Rio-SP, muitos torcem por Flamengo, Corinthians, Vasco e São Paulo, por exemplo.

Aqui no Sul, não. Em Porto Alegre são apenas Inter e Grêmio — com todo respeito ao São José, o Zequinha, mas como clube de bairro a torcida não se compara a dos gigantes. No Interior, somente os municípios de Pelotas e Caxias do Sul têm times na Série B: Brasil de Pelotas e Juventude. Os torcedores até existem, fazem festas bonitas, mas em sua maioria compartilham da paixão pelos clubes da Capital.

Sendo assim, o assunto em tudo quanto é lugar passa a ser, quase que exclusivamente, o jogo. Que, bem na verdade, é muito mais do que um jogo. E envolve mais do que apenas torcedores preocupados com suas equipes. Gre-Nal no Rio Grande do Sul é política — não à toa personalidades da Dupla são eleitos para cargos públicos. É religião — defendida com unhas e dentes, como se fosse um conflito israelo-palestino. E é, também, entretenimento.

Os colorados se vangloriam por terem vencido mais vezes o Gre-Nal na história, enquanto os gremistas alegam que os triunfos do rival são, em maioria, pelo Estadual, já que no Brasileirão os tricolores têm vantagem nos números. Assim, a flauta não acaba nunca. Consequentemente, o assunto não tem fim. As pessoas ainda não entenderam que corneta se aceita, não se discute. Pior para os que se irritam.

Tudo isso para dizer que Gre-Nal é Gre-Nal e vice versa, como teria dito um histórico ex-jogador do Grêmio. Ele nega que tenha falado isso. Mas não importa. O que vale é o conceito. É saber que, na terra dos cinco últimos técnicos da Seleção Brasileira, o clássico dos dois gigantes para tudo, como ocorrerá nesta quinta-feira, quando a Dupla se enfrentará pela primeira vez na história da Libertadores, a maior competição entre clubes do continente. Parou até esse texto, que não pude completar porque… silêncio que rolou a bola na Arena do Grêmio para o Gre-Nal 424. E ele será histórico.