“Pelé quebrou meu joelho”

22 de novembro de 2018

 

Por Rogério Andrade

Edson Arantes do Nascimento, o maior jogador da história do futebol, completou no mês passado 78 anos. Mas em vez exaltar as glórias do nosso Rei do Futebol, único jogador a conquistar três Copas do Mundo, vamos recontar uma história curiosa que escrevi para a revista Placar em 2004. Na época, entrevistei o ex-jogador Pando, que veio a falecer em 2012. Ele era lateral-esquerdo do Juventus naquele memorável dia em que Pelé marcou “o gol mais bonito da carreira”. Entretanto, Pando não guardava boas recordações daquele jogo e me contou por que. Confira.

 


 

Foto do famoso Juventus x Santos, de 1959. Pando no detalhe (reprodução arquivo pessoal)

 

 

 

 

 

 

 

“PELÉ QUEBROU MEU JOELHO”

Pouca gente sabe, mas antes de marcar o golaço na rua Javari, Pelé merecia ter sido expulso. O lateral Pando, do Juventus, conta como o rei triturou seu joelho.

Quanto você pagaria para estar na rua Javari naquele 2 de agosto de 1959 e ver o mais bonito entre os 1281 gols da carreira de Pelé? A obra mais linda do maior jogador de todos os tempos. Imagine então o prazer de ter jogado aquele jogo e ver o gol acontecendo ali, debaixo do seu nariz…

Que Pelé marcou o gol, após uma sequência de chapéus, todo mundo sabe. Que o diretor Aníbal Massaini recriou o gol em computador para o filme Pelé Eterno, também. O que poucos lembram, no entanto, é que, antes de marcar o golaço, o rei do futebol esfacelou o joelho do lateral-esquerdo do Juventus, Pando, e o juiz fez que não viu. Naquele 2 de agosto de 1959, José Pando, hoje com 69 anos, tinha 24 anos e era o lateral-esquerdo do Juventus.

Pando diz que sofria muito em todos os jogos contra Pelé, mas naquele dia algo além de dribles e gols o deixaria marcado para sempre. O jogo estava 3 x 0 para o Santos, e o Rei já havia marcado dois no goleiro Mão de Onça.

Foi então que Pelé sofreu uma entrada violenta que o tirou de campo por alguns minutos. Segundo Pando, esse lance deixou o camisa 10 do Santos nervoso e disposto a revidar. Logo que voltou a campo, Pelé pegou a bola e começou a fazer a fila. “Depois de passar por uns três ou quatro, na hora do chute, eu cheguei dando o carrinho, aí ele deixou a sola da chuteira. Meu joelho esquerdo dobrou pra frente, eu desmaiei. Ele me virou do avesso”, afirma Pando, mostrando as três cicatrizes da operação — apelidadas por ele de “Édson, Arantes e Nascimento”.

Apesar da má lembrança, o ex-lateral do Juventus diz que não guarda mágoa. “Tinha que acontecer. Fazer o quê?”, afirma, resignado. Pando revela que Pelé nunca pediu desculpas diretamente pela entrada, mas acha que o Rei tem um certo remorso porque sempre o tratou muito bem em todas as vezes em que se encontraram.

A contusão aconteceu no melhor momento da carreira de Pando e o deixou um ano e dois meses parado. Depois disso, o lateral voltou a jogar alguns torneios pelo Juventus, passou pelo Jabaquara, de Santos, e pelo Paulista, de Jundiaí. Com a carreira encerrada, Pando arrumou emprego na Ford, onde se aposentou.

Pelé obviamente não foi expulso após a entrada (nem cartão amarelo levou, pois o sistema de cartões só apareceria 11 anos depois). Pando saiu e o Juventus ficou com um jogador a menos — na época não eram permitidas substituições.

Alguns minutos mais tarde, o Rei faria seu mais belo gol. E Pando jazia em uma maca, desmaiado.